Se rio de mim, me levem a sério.
( PAULO LEMINSKI)

segunda-feira, outubro 19, 2009

Preguiça


Acordava agora todos os dias como se fosse melhor ficar deitada ali olhando a fresta de luz saindo da persiana torta do quarto; queria ficar ali viajando nos pensamentos, poderia passar uma vida assim deitada, bocejando, virando o travesseiro pro lado mais gelado... Levantar, arrumar, aguentar tanta informação, fofofa, deveres, pedidos, não era mais agradável. Cada dia passava cada vez mais lento e quente, chato e desorganizado, culpa de toda rotina que cercava seus caminhos. Quem dera ainda a vontade de sair, de caminhar, de conversar, rir, flertar, beber, suar e cantar ainda fosse a mesma. Já não tinha vontade de conhecer ninguém, todos pareciam tão desinteressantes a ponto de se fechar nos mesmos rostos e mãos. O silêncio que sempre incomodou agora era lei, barulho demais parecia um disfarçe para o vazio no meio de festas, pessoas, cervejas e movimentos; sempre todas as vozes e palavras repetidas que já se sabia a forma, o tom e as palavras que cada um usava. A madrugada que já era perfeita, fria, calada, se tornou o único momento do dia em que não se tinha enjôo. Cada dúvida era como um prêmio e uma parte morta por dentro e é o que a mantinha viva, a liberdade da escolha que faria pra si toda manhã em cima da cama olhando pela fresta da cortina do seu quarto nada escuro.

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'Tenho sonhos verdes
Acho que vão nos ver de novo aqui
Temos que acreditar
Que realmente algo mudou
Mesmo que seja dentro de nós...'
(Detonautas)